A luz do monitor era a única coisa viva naquele quarto

 

A luz do monitor era a única coisa viva naquele quarto.

02:47 da manhã.

O ventilador girava devagar espalhando ar quente como se o próprio apartamento estivesse cansado de existir. A janela continuava aberta mesmo com o frio entrando porque ela gostava do som distante da cidade. Sirenes. Moto passando. Cachorro latindo em algum lugar invisível. O caos respirando lá fora enquanto ela fingia que ainda fazia parte dele.

O quarto era pequeno. Escuro. Coberto por LEDs roxos já meio queimados nos cantos. Roupas pretas jogadas na cadeira. Livros nunca terminados empilhados perto da cama. Um copo vazio de energético ao lado do notebook. Tudo parecia congelado no tempo, como se aquele lugar tivesse desistido de evoluir junto com o resto do mundo.

Na tela do computador:

  • notificações ignoradas
  • mensagens não respondidas
  • vídeos sobre ansiedade
  • playlists chamadas “nothing feels real anymore”

Ela encarava tudo aquilo sem piscar muito.

O delineador já tinha borrado fazia horas.

Talvez dias.

Difícil saber.

🌑

O celular vibrou.

Outra trend idiota.
Outra pessoa fingindo felicidade.
Outro casal perfeito.
Outra garota sorrindo num café caro falando sobre “energia boa”.

Ela bloqueou a tela.

Silêncio.

Às vezes parecia que o mundo moderno tinha virado uma competição de quem consegue esconder melhor o próprio vazio.

Ela não conseguia esconder.

Nunca conseguiu.

Talvez por isso sempre se sentiu meio quebrada perto das outras pessoas.

Enquanto todo mundo corria atrás de produtividade, dinheiro, academia, status e vídeos rápidos de 15 segundos… ela só queria conseguir dormir sem sentir o peito pesado.

Mas ninguém posta isso.

Ninguém grava TikTok chorando no chão do banheiro às 4 da manhã depois de perceber que não faz ideia do que tá fazendo da própria vida.

Então ela também ficou em silêncio.

Como sempre.

Abriu o Spotify.

Uma música antiga começou a tocar baixinho no quarto. Daquelas que parecem abraço fantasma vindo de 2007. O tipo de música que faz o tempo ficar mais lento por alguns minutos.

Ela fechou os olhos.

Por um instante, parecia que o mundo inteiro tinha desaparecido:

  • os algoritmos
  • as notícias ruins
  • as guerras
  • a pressão
  • os feeds infinitos
  • o medo do futuro

Só existia aquele quarto escuro.

E ela.

Sozinha de novo.

Mas estranhamente segura ali dentro.

Porque às vezes o único lugar onde garotas assim conseguem respirar… é dentro da própria melancolia.

🌧️

Ela abriu o bloco de notas.

Ficou olhando o cursor piscando.

Piscando.

Piscando.

Como se o computador estivesse esperando ela finalmente dizer alguma coisa verdadeira.

Depois de alguns segundos, escreveu:

“acho que minha geração aprendeu a transformar tristeza em estética porque sentir dói menos quando parece arte.”

Ela releu aquilo umas três vezes.

Sorriu fraco.

Talvez fosse a frase mais honesta que tinha escrito no ano inteiro.

Lá fora, a cidade continuava acordada. Neon refletindo na chuva. Gente correndo pra lugar nenhum. Milhões de pessoas tentando parecer felizes na internet enquanto desmoronavam em silêncio por dentro.

E naquele quarto escuro iluminado só pela luz azul do monitor…

ela percebeu que não estava exatamente curada.

Mas também não estava completamente perdida.

Só cansada.

Cansada num idioma que a geração dela aprendeu a falar fluentemente.

🌑

Por: LegendZilla

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